No G20, Lula lança Aliança Global contra a Fome: “Será o nosso maior legado”

A aliança conta com 147 membros fundadores, dos quais 81 países, a União Africana, a União Europeia, 24 organizações internacionais, 9 instituições financeiras internacionais e 31 organizações filantrópicas

Fábio Matos

Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente da República, no G20, no Rio de Janeiro (RJ) (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente da República, no G20, no Rio de Janeiro (RJ) (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez o discurso oficial de abertura da cúpula de chefes de Estado do G20, nesta segunda-feira (18), em evento que reúne as principais lideranças políticas do mundo. 

O G20 é o grupo formado pelas 19 maiores economias do mundo, mais a União Europeia e a União Africana. Em seu discurso, Lula lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa da presidência brasileira no G20

A aliança conta com 147 membros fundadores, dos quais 81 países, a União Africana, a União Europeia, 24 organizações internacionais, 9 instituições financeiras internacionais e 31 organizações filantrópicas e não governamentais. Dos integrantes do G20, apenas a Argentina ainda não havia endossado o movimento. 

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Quero agradecer a generosidade da presença de vocês, transformando o Rio de Janeiro na capital do mundo neste dia 18 de novembro de 2024. É muito importante o que vamos discutir aqui e tenho certeza de que, se assumirmos a responsabilidade com esses assuntos da fome e da pobreza, poderemos ter sucesso em pouco tempo”, disse Lula no início do discurso aos demais chefes de Estado. 

O presidente brasileiro afirmou que o Rio de Janeiro, sede da cúpula do G20, “é a síntese dos contrastes que caracterizam o Brasil, a América Latina e o mundo”. “De um lado, a beleza exuberante da natureza sob os braços abertos do Cristo Redentor. De outro, injustiças sociais profundas. O retrato vivo de desigualdades sociais históricas e persistentes”, afirmou. 

Lula disse, ainda, que encontrou um mundo pior do que aquele que existia durante seus dois períodos anteriores como presidente da República, entre 2003 e 2010. 

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“Temos o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e a maior quantidade de deslocamentos forçados já registrada. Os fenômenos climáticos extremos mostram seus efeitos devastadores em todos os cantos do planeta. As desigualdades se aprofundam, na esteira de uma pandemia que ceifou mais de 15 milhões de vidas”, afirmou. 

“A fome e a pobreza não são resultado da escassez ou de fenômenos naturais. A fome é a expressão biológica dos males sociais. É produto de decisões políticas que perpetuam a exclusão de grande parte da humanidade. O G20 representa 85% dos US$ 110 trilhões do PIB mundial e por 75% dos US$ 32 trilhões do comércio de bens e serviços”, prosseguiu o petista. 

“Compete aos que estão em volta desta mesa a inadiável tarefa de acabar com essa chaga que envergonha a humanidade. Colocamos como objetivo central da presidência brasileira no G20 o lançamento de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Este será o nosso maior legado. Quer esta cúpula seja marcada pela coragem de agir”, concluiu Lula.  

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Leia a íntegra do discurso de Lula na abertura da Cúpula do G20:

“Caros Chefes de Estado e de Governo,

Dirigentes de Organizações Internacionais,

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Demais Chefes de Delegação,

Minhas amigas e meus amigos,

Sejam bem-vindos ao G20.

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Sejam bem-vindos ao Rio de Janeiro.

Esta cidade é a síntese dos contrastes que caracterizam o Brasil, a América Latina e o mundo. De um lado, a beleza exuberante da natureza sob os braços abertos do Cristo Redentor. Um povo diverso, vibrante, criativo e acolhedor.

De outro, injustiças sociais profundas. O retrato vivo de desigualdades históricas persistentes.

Estive na primeira reunião de líderes do G20, convocada em Washington no contexto da crise financeira de 2008. Dezesseis anos depois, constato com tristeza que o mundo está pior. Temos o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial e a maior quantidade de deslocamentos forçados já registrada. Os fenômenos climáticos extremos mostram seus efeitos devastadores em todos os cantos do planeta. As desigualdades sociais, raciais e de gênero se aprofundam, na esteira de uma pandemia que ceifou mais de 15 milhões de vidas.

O símbolo máximo na nossa tragédia coletiva é a fome e a pobreza. Segundo a FAO, em 2024, convivemos com um contingente de 733 milhões de pessoas ainda subnutridas. É como se as populações do Brasil, México, Alemanha, Reino Unido, África do Sul e Canadá, somadas, estivessem passando fome.

São mulheres, homens e crianças, cujo direito à vida e à educação, ao desenvolvimento e à alimentação são diariamente violados.

Em um mundo que produz quase 6 bilhões de toneladas de alimentos por ano, isso é inadmissível.

Em um mundo cujos gastos militares chegam a 2,4 trilhões de dólares, isso é inaceitável.

A fome e a pobreza não são resultado da escassez ou de fenômenos naturais. A fome, como dizia o cientista e geógrafo brasileiro Josué de Castro, “a fome é a expressão biológica dos males sociais”. É produto de decisões políticas, que perpetuam a exclusão de grande parte da humanidade.

O G20 representa 85% dos 110 trilhões de dólares do PIB mundial. Também responde por 75% dos 32 trilhões de dólares do comércio de bens e serviços e dois terços dos 8 bilhões de habitantes do planeta. Compete aos que estão aqui em volta desta mesa a inadiável tarefa de acabar com essa chaga que envergonha a humanidade.

Por isso, colocamos como objetivo central da presidência brasileira no G20 o lançamento de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Este será o nosso maior legado.

Não se trata apenas de fazer justiça. Essa é uma condição imprescindível para construir sociedades mais prósperas e um mundo de paz. Não por acaso, esses são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 1 e 2 da Agenda 2030.

Com a Aliança, vamos articular recomendações internacionais, políticas públicas eficazes e fontes de financiamento. O Brasil sabe que é possível.

Com a participação ativa da sociedade civil, concebemos e implementamos programas de inclusão social, de fomento da agricultura familiar e da segurança alimentar e nutricional, como o nosso Bolsa Família e o Programa Nacional de Alimentação Escolar.

Conseguimos sair do Mapa da Fome da FAO em 2014, para o qual voltamos em 2022, em um contexto de desarticulação do Estado de bem-estar social. Foi com tristeza que, ao voltar ao governo, encontrei um país com 33 milhões de pessoas famintas.

Em um ano e onze meses, o retorno desses programas já retirou mais de 24, 5 milhões de pessoas da extrema pobreza. Até 2026, novamente sairemos do Mapa da Fome.

E com a Aliança, faremos muito mais. Aqueles que sempre foram invisíveis estarão ao centro da agenda internacional. Já contamos com a adesão de 81 países, 26 organizações internacionais, 9 instituições financeiras e 31 fundações filantrópicas e organizações não-governamentais.

Meus agradecimentos a todos os envolvidos na concepção e no funcionamento desta iniciativa, que já anunciaram contribuições financeiras.

Foi um ano de trabalho intenso, mas este é apenas o começo. A Aliança nasce no G20, mas seu destino é global. Que esta cúpula seja marcada pela coragem de agir.

Por isso quero declarar oficialmente lançada a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.

Muito obrigado.

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Fábio Matos

Jornalista formado pela Cásper Líbero, é pós-graduado em marketing político e propaganda eleitoral pela USP. Trabalhou no site da ESPN, pelo qual foi à China para cobrir a Olimpíada de Pequim, em 2008. Teve passagens por Metrópoles, O Antagonista, iG e Terra, cobrindo política e economia. Como assessor de imprensa, atuou na Câmara dos Deputados e no Ministério da Cultura. É autor dos livros “Dias: a Vida do Maior Jogador do São Paulo nos Anos 1960” e “20 Jogos Eternos do São Paulo”