Os 4 fatores que explicam o otimismo com ações de construtoras mesmo com Selic alta

Saiba, ainda, quais são os papéis preferidos dos analistas para investir no setor

Leonardo Guimarães

Ativos mencionados na matéria

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Quem acompanha a economia sabe que juros altos são prejudiciais para o crescimento das empresas e alguns setores sofrem impactos maiores. Varejo e construção civil são frequentemente listados como os mais afetados pela Selic alta porque dependem de financiamento e consumo fortes para crescer.

Mas, mesmo com a taxa básica de juros em 10,50% ao ano – e com possibilidade de alta -, as corretoras ainda gostam das ações de construtoras e até recomendam a compra. 

Prova disso é que a ação da Cyrela (CYRE3) foi uma das seis mais recomendadas para agosto em lista elaborada pelo InfoMoney com carteiras de nove corretoras. Outras companhias do setor, como Direcional (DIRR3) e Cury (CURY3), figuram nestas listas ao lado de bancos e elétricas, companhias consideradas “defensivas” e “seguras” para o momento atual.

Viva do lucro de grandes empresas

Enquanto isso, o IMOB, índice que mede o desempenho das principais construtoras listadas na B3, acumula alta superior a 7% nos últimos seis meses, acima do Ibovespa.

Diante disso, o que explica o otimismo com o setor mesmo diante de juros altos? Confira a seguir: 

1. Minha Casa Minha Vida

Primeiro, é preciso separar as construtoras de baixa, média e alta renda. Isto é importante para entender que os dois primeiros segmentos (especialmente o de baixa renda) são amplamente ligados ao Minha Casa Minha Vida (MCMV) e constroem empreendimentos que se enquadram no programa para aproveitar a demanda e facilidade de financiamento. 

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E para quem constrói no MCMV, a Selic tem pouco impacto. “É um programa vinculado ao FGTS e tem taxas baixas com pouquíssima variação em relação à Selic”, explica Pedro Dietrich, analista da Ativa Investimentos. 

No último dia 9, o Ministério das Cidades atualizou as faixas de renda dos beneficiários do programa. O limite da faixa 1 passou de R$ 2.640 para R$ 2.850, enquanto na faixa 2 passou de R$ 4.400 para R$ 4.700. Por sua vez, a faixa 3 seguiu em R$ 8.000.

Ainda neste mês, o Conselho Curador do FGTS destinou mais R$ 22 bilhões do orçamento anual do fundo para abastecer os financiamentos ao programa habitacional. As medidas, portanto, contribuíram para fortalecer a tese de investimento nas construtoras beneficiadas pelo programa.

2. Margens melhores

Se o MCMV explica o otimismo com as construtoras de baixa e média renda, por que as de alta renda, como a Cyrela, ainda são bem vistas pelo mercado? A resposta começa pelo Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M). O indicador de inflação do setor está comportado, o que vem contribuindo para aumentar as margens das empresas. 

“Hoje o INCC está estável e as empresas vêm conseguindo margens mais expressivas”, diz Felipe Mesquita, analista do BB Investimentos. Ele ainda explica que as construtoras não estão aumentando os gastos com comissões para vender mais: “o movimento de venda tem sido orgânico, o que também ajuda as margens”. 

3. Melhora no crédito

O segmento de alta renda vinha sofrendo com a falta de financiamento. Com o cenário econômico cheio de incertezas, os bancos frearam a concessão de crédito.

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“Ainda não é interessante para eles a agressividade no segmento imobiliário, mas vimos uma melhora marginal na concessão de crédito para o cliente de alta renda”, diz Dietrich. 

4. Lição de casa feita

Diante desses fatores que vêm ajudando o setor, a avaliação dos especialistas ainda é de que as empresas aproveitaram o momento para reduzir o endividamento e aumentar a eficiência das operações, o que fortalece a confiança nos fundamentos das companhias para investimentos de longo prazo. 

Mesquita diz que “o setor de construção tem uma dinâmica específica: os recursos das vendas podem demorar até três anos para caírem no balanço; percebemos que, mesmo com esse atraso no reconhecimento, tivemos empresas com impacto pequeno do momento ruim após a pandemia”. 

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Quais são os riscos?

Mesmo diante destes fatores positivos, sempre há riscos no radar. Um INCC voltando a avançar é o principal temor para os investidores do setor. Se isso acontecer, as margens voltam a ficar pressionadas e eventos positivos (e incomuns), como o pagamento de dividendos da Direcional, deixariam de acontecer.

Além disso, o investidor deve ficar de olho no valuation das companhias: “a maioria das empresas ligadas ao MCMV estão bem precificadas”, alerta Dietrich, que ainda enxerga boas oportunidades no setor. 

Onde investir?

Partindo para onde investir, a Ativa e o BB-BI têm indicação de compra para a Direcional. Mesquita, do BB, diz que a ação, hoje cotada na casa dos R$ 29, pode chegar a R$ 33,50 em um ano e exalta a distribuição de dividendos da empresa: “vem devolvendo capital em um ritmo incomum para o mercado, é um indicador que ativa o radar para outros tipos de investidores”. 

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Já a Ágora prefere o papel da Cyrela porque vê na empresa “a combinação de operação reconhecidamente de qualidade com liquidez de suas ações, o que faz dela uma das principais alternativas de investimento no setor, em caso de entrada de capital estrangeiro”. 

A Cury também é elogiada (e indicada) pelo BB Investimentos. Mesquita lembra que a empresa vem batendo recordes de lançamentos e diz que “está com o operacional ‘voando’”.

O preço-alvo da casa para o papel, que hoje custa cerca de R$ 23,50, é de R$ 27,50. Mas o especialista pondera: “o setor imobiliário é um dos mais voláteis da Bolsa, não são companhias defensivas ou indicadas para o investidor conservador”.