Quando os mercados internacionais passam por turbulências, os treasuries costumam ganhar os holofotes, pois funcionam como um porto seguro para o dinheiro. E isso se acentua quando os juros americanos estão em alta. Afinal, rentabilidade com segurança é o sonho de quase todo investidor.
Os treasuries são uma das alternativas mais buscadas para quem pretende mitigar o risco na hora de investir. A seguir, mostraremos o que são, como funcionam e como o brasileiro pode aplicar nesses títulos. Confira:
O que são treasuries?
Treasuries são o equivalente aos papéis do Tesouro Direto brasileiro, ou seja, são títulos emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos para o financiamento da dívida do governo.
Todo país necessita de recursos para investir em atividades básicas voltadas à população – como infraestrutura, saneamento, segurança, e assim por diante. E somente a arrecadação tributária não supre toda essa necessidade. Por isso, a emissão de dívida acaba sendo mais uma fonte de captação para o governo, e ela se dá por meio dos títulos públicos federais.
Nos Estados Unidos, os treasuries são os bonds públicos. Há também os corporate bonds, que são títulos emitidos por empresas para o mesmo fim, que é a captação de recursos para o financiamento de suas operações.
Remuneração dos treasuries
A maioria dos treasuries possui taxa de juros prefixada, ou seja, com remuneração conhecida no momento da aplicação. Papéis como esse são diferentes, por exemplo, do Tesouro Selic, modalidade pós-fixada do Tesouro Direto.
Taxas prefixadas dão mais previsibilidade ao investidor que adquire o título público americano, pois ele já sabe qual será o seu rendimento desde o início da aplicação.
Normalmente os juros dos treasuries de longo prazo são maiores do que os de curto prazo. Mesmo que a economia dos Estados Unidos seja considerada a economia mais forte do mundo, riscos sempre existem em todo tipo de investimento. E, no longo prazo, o investidor estará mais vulnerável a eles, o que justifica uma remuneração mais alta para esses títulos.
Em alguns momentos, no entanto, essa dinâmica pode se inverter. Nesses casos, os treasuries de curto prazo passam a oferecer taxas maiores do que os títulos de vencimentos mais longos. Especialistas normalmente consideram esse comportamento uma anomalia da curva de juros, que tende a ser corrigida à medida que mudam as expectativas para a economia e para a trajetória dos juros nos Estados Unidos.
Tipos de treasuries
Ao todo, são seis tipos de treasuries que o Tesouro americano disponibiliza para os investidores.
A exemplo do Tesouro Direto, alguns deles oferecem a possibilidade de recebimento de juros semestrais. Veja a seguir:
| Treasury | Características |
|---|---|
| T-Bills | Vencimentos de curto prazo, de quatro semanas a um ano. Não pagam juros periódicos, sendo vendidas com desconto sobre o valor de face. |
| T-Notes | Vencimentos intermediários entre dois e 10 anos. Pagam juros semestrais fixos. |
| T-Bond | Vencimentos mais longos do mercado secundário, prazos de 20 ou 30 anos. Pagam juros semestrais e não possuem opção de resgate antecipado junto ao governo; se o investidor quiser o dinheiro antes, precisará vendê-los para outros investidores a preço de mercado. |
| TIPS | Títulos indexados à inflação (Treasury Inflation-Protected Securities), com prazos fixos de emissão de 5, 10 ou 30 anos. Pagam juros semestrais calculados sobre o valor principal corrigido pela variação do CPI (índice de inflação americano). |
| FRN | Títulos pós-fixados (Floating Rate Notes) emitidos exclusivamente com o prazo fixo de dois anos no leilão inicial. Pagam juros trimestrais que variam semanalmente com base no rendimento das T-Bills. |
| Savings Bonds | Títulos de poupança de longo prazo (até 30 anos) voltados à pessoa física residente nos EUA. Não podem ser negociados no mercado secundário (resgate direto com o governo americano após 1 ano) e seus juros acumulam mensalmente no próprio título em vez de serem distribuídos em conta. |
O que é yield dos treasuries?
Yield nada mais é do que a rentabilidade dos treasuries, o retorno que o investidor receberá do Tesouro americano pela compra dos papéis.
Esses rendimentos acompanham a expectativa que o mercado tem para as decisões do Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos EUA. Quando o Fed aumenta os juros, o preço dos treasuries em circulação tende a cair, pois os títulos que o governo emitir após a alta dos juros serão mais atrativos para o investidor.
Por outro lado, quando os juros caem, os preços dos treasuries sobem, pois nesse caso eles irão remunerar melhor o investidor em relação a títulos emitidos no futuro.
Como investir em treasuries morando no Brasil?
Quem deseja investir na renda fixa americana a partir do Brasil pode fazer isso de duas formas. Uma delas é abrindo uma conta internacional junto a uma corretora que atua nos Estados Unidos.
A conta internacional é uma alternativa para quem deseja aplicar em outras geografias. No caso dos EUA, além da renda fixa, o investidor pode ter acesso ao maior mercado de renda variável do mundo, pois as bolsas do país – NYSE e Nasdaq – possuem juntas mais de 6.500 empresas listadas.
Corretoras como XP e Avenue, bancos tradicionais como Itaú, Bradesco e Banco do Brasil, e bancos digitais como o C6 Bank são alguns exemplos de instituições financeiras que oferecem a conta internacional. O investidor pode adquirir treasuries diretamente por meio dessas plataformas e negociá-los no mercado secundário também por intermédio dessas instituições.
Outra forma de investir em treasuries é por meio dos BDRs de ETFs (fundos de índice) disponíveis na bolsa brasileira. Os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) são títulos que representam ativos internacionais, mas são comercializados no mercado brasileiro e em reais.
Esses investimentos são lastreados em cotas de ETFs emitidos no exterior. Trata-se de uma opção mais prática para quem procura diversificação no mercado norte-americano.
No pregão, podemos identificar os BDRs de ETFs pelo número 39 ao final do ticker. Alguns exemplos de BDRs de treasuries são:
| Código | ETF que segue |
|---|---|
| BTFL39 | iShares Treasury Floating Rate Bond ETF |
| BSTI39 | iShares 0-5 Year TIPS Bond ETF |
| BTIP39 | iShares TIPS Bond ETF |
| BGOV39 | iShares US Treasury Bond ETF |
| BIEI39 | iShares 3-7 Year Treasury Bond ETF |
Custos dos treasuries para o investidor
Quem opta por adquirir diretamente treasuries lá fora, terá o custo do fechamento de câmbio quando enviar os reais para a corretora. Nessa operação, o IOF incidente é de 1,1% (ou 0,38% entre CPFs diferentes), e há taxas de serviços cobradas pelas corretoras que costumam variar de 0,5% e 2% do valor da operação. Lembrando que cada instituição financeira tem sua própria política de tarifas, que podem ser mais ou menos vantajosas para cada investidor.
Na hora de declarar o Imposto de Renda, os investimentos em títulos da dívida americana seguem regras específicas:
- Apuração na Declaração Anual do Imposto de Renda: O imposto é calculado e recolhido uma vez por ano, diretamente na Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda. Não há necessidade de utilizar o GCAP ou o Carnê-Leão para esses rendimentos.otalmente as alíquotas e a forma como são aplicadas.
- Alíquota de 15%: Tanto o lucro obtido na venda do título quanto os juros (cupons) recebidos são tributados à alíquota fixa de 15%.
- Sem tabela progressiva: A tributação não varia conforme o valor do ganho. A alíquota é sempre de 15%.
- Sem isenção para vendas de até R$ 35 mil: Os lucros obtidos com a venda de títulos públicos americanos são tributados, independentemente do valor negociado.
Vale a pena investir em Treasuries?
Em geral, investidores preferem treasuries em momentos de juros altos nos EUA, pois se o produto considerado o mais seguro do mundo remunera bem, ativos de renda variável acabam perdendo atratividade.
Por suas características, os títulos do Tesouro americano também têm liquidez mais alta do que a de outros papéis soberanos ao redor do mundo, inclusive os do Tesouro Direto. Isso significa que, caso deseje vender um treasury antes do vencimento, provavelmente o investidor encontrará interessados, mesmo que o título venha a sofrer marcação a mercado (ajuste diário no valor dos ativos).
Para investir em treasuries diretamente ou em BDRs de ETFs que representem esses ativos, é preciso avaliar aspectos como prazos dos títulos e momento de mercado. Além disso, o perfil de risco deve ser adequado à exposição internacional, já que se trata de um ativo em moeda estrangeira – mesmo os BDRs de ETFs, que são negociados em reais, estão sujeitos à variação cambial, item que deve compor a avaliação de risco da carteira.