Fiscal volta a assombrar?

Quanto menos nos aproximarmos de um resultado fiscal que equilibra a dívida pública com relação ao PIB, piores ficam as expectativas, e menor a capacidade de o BC cortar os juros

Luiz Fernando Figueiredo

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Bandeira do Brasil (Getty Images)
Bandeira do Brasil (Getty Images)

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Desde a aprovação do arcabouço fiscal, logo no início do terceiro trimestre, tivemos poucos barulhos em relação ao tema fiscal.

Todos os olhares estavam direcionados aos esforços da Fazenda e quanto à persecução das medidas de arrecadação potencialmente capazes de trazer o equilíbrio fiscal.

A quietude perdurou até o presidente Lula, em um de seus discursos, afirmar que a meta fiscal de 2024 não precisava ser zero e que ela dificilmente seria cumprida.

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Alguns dias depois, o ministro Haddad veio a público, tentando minimizar o que o presidente disse, mas não confirmou se de fato a meta seria mantida.

O cenário criado foi mais do que suficiente para aumentar a incerteza fiscal e preocupar a todos, inclusive o mercado.

Por ora, as informações indicam que o governo alteraria a meta fiscal de 0% para -0,5%. Entretanto, o mercado já espera que o déficit fique entre -0,5% e -1,0%, sendo que o consenso está em -0,8%, seja por conta de achar que o governo está subestimando uma parte das despesas obrigatórias ou também pelo potencial arrecadatório estar muito esticado.

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O forte incômodo do mercado com essa postura parece ter duas vertentes. A primeira está ligada à memória histórica: o último episódio de alteração de meta fiscal se deu em julho de 2015, quando o governo reduziu de 1,1% para 0,2% a meta fiscal do ano corrente.

Juros pré, câmbio e Bolsa sentiram de imediato e sofreram bastante nos dois meses seguintes: os juros pré de 5 anos abriram pouco mais de 300 pontos base, o câmbio depreciou em média 20% e a Bolsa caiu quase 10%.

Ainda sobre 2015, observamos que, após dois meses de anúncio de alteração da meta fiscal, as expectativas de inflação também sentiram o efeito. De acordo com a pesquisa Focus, a expectativa de 2015 subiu 22 pontos base e a de 2016 aumentou 46 pontos base.

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Trazendo para o contexto atual, não sabemos quanto será incorporado nas expectativas de 2024 e nos anos seguintes, considerando que o horizonte relevante de política monetária do nosso Banco Central (BC) é 2024 e 2025 e o ambiente externo está bastante desafiador para economias emergentes.

A segunda vertente diz respeito ao lado político: a redução da meta fiscal abre espaço para que o Congresso se mostre menos engajado para votar e aprovar as propostas de receita extra, uma vez que atingir o objetivo estaria, teoricamente, menos árduo e principalmente a sensação de um governo menos comprometido com o equilíbrio fiscal.

Além disso tudo, a própria credibilidade do Ministério da Fazenda ficou em jogo: menos de três meses após a aprovação do arcabouço, a discussão sobre alterar a meta fiscal se consolida e traz consigo a facilidade aparente que é realizar essa mudança por meio de uma emenda na Lei de Diretrizes Orçamentária (LDO).

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O quanto nos aproximamos da consolidação fiscal tem sido muito considerado pelo BC, que sempre tem reservado um parágrafo em seus comunicados e nas atas de decisões sobre essa preocupação.

Quanto menos nos aproximarmos de um resultado fiscal que equilibra a dívida pública com relação ao PIB, piores ficam as expectativas à frente, e menor capacidade o BC tem de cortar os juros.

A autoridade monetária já vem com algum grau de cautela por conta do ambiente externo ainda incerto e da perspectiva de os juros ficarem elevados mais tempo nas economias desenvolvidas. Dúvidas sobre a nossa trajetória fiscal só dificultam ainda mais esse quadro e o próprio esforço de trazer a inflação às metas.

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Este artigo tem a co-autoria do economista da Jive Investments Luan Takada

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Luiz Fernando Figueiredo

Graduado em Administração de Empresas pela FAAP, com especialização em Finanças, construiu carreira no mercado financeiro desde os 18 anos. Foi Diretor do Banco Central do Brasil entre 1999 e 2003, Conselheiro e Coordenador do Comitê de Risco e Financeiro e membro do Comitê do Setor de Emissores da B3, além de um dos fundadores da Gávea Investimentos. Atuou como Sócio e Diretor-Tesoureiro do Banco BBA, ocupando também posições de liderança no Banco Nacional, no JP Morgan e em corretoras locais. É fundador e Presidente da AMEC e foi Diretor da ANBIMA por 18 anos. Fundador da Mauá Capital, liderou a união da gestora com a Jive Investments em 2022, tornando-se Chairman da JiveMauá até dezembro de 2025, quando vendeu o restante de sua posição acionária. Em 2018, fundou o Instituto Fefig de Educação, Cultura e Esportes, focado em iniciativas de alto impacto em Educação. Mais recentemente, tornou-se sócio e membro do conselho consultivo da Jubarte Capital, além de sócio da Klavi, onde atua como conselheiro e senior advisor, e, na área social, é Conselheiro da Associação Parceiros da Educação e do IDIS.