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O “Novo Normal”, disseram. Uma revolução no mercado de trabalho que ressignificaria as relações profissionais e as possibilidades de emprego. Essa era a promessa quando a adoção do trabalho remoto foi forçada durante a pandemia. Passados dois anos do fim da crise sanitária global, o “Novo Normal” tem sido substituído pelo “Velho Normal” em muitas empresas.
A Amazon destituiu o modelo híbrido e exigiu que os funcionários estivessem presentes na empresa os cinco dias da semana a partir de 2025 (embora a medida tenha sido adiada de janeiro para maio por não haver espaço para todos nos escritórios). Dell, JP Morgan, Goldman Sachs e Boeing são outros exemplos de multinacionais que estão fazendo o mesmo movimento.
No caso do Goldman Sachs, o CEO David Solomon chegou a chamar o trabalho remoto de “aberração” em 2021 e queria o retorno total antes mesmo de a pandemia acabar. Já Michael Dell, CEO da Dell, passou o verniz da “necessidade de manter a velocidade e a inovação nos negócios” depois de ter limitado promoções de carreira somente para quem fosse ao escritório no ano passado.
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Medidas como essa estão sendo feitas de forma unilateral sem consulta aos profissionais, apenas com a determinação das diretorias, o que Daniela Diniz, diretora do ecossistema Great People/GPTW, classifica como “medidas da era industrial”.
“É um estilo de comando e controle que não é mais compatível com a atualidade, onde outros indicadores de qualidade de entrega e desempenho são mais eficazes do que o obsoleto ‘ver para crer’, que demonstra falta de confiança nos profissionais”, diz.
No Brasil, a consultoria Mercer questionou 150 grandes e médias empresas em dezembro do ano passado sobre seus modelos de trabalho em 2025. Apenas 23% delas responderam que questionaram os funcionários sobre suas preferências. Entre as que aplicaram a pesquisa, 94% das respostas indicaram preferir o modelo híbrido, 3% o totalmente remoto e menos de 1% o 100% presencial.
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Nos Estados Unidos, uma pesquisa feita pela rede social profissional Blind, em setembro de 2024, logo após o anúncio da Amazon, mostrou que 91% dos profissionais não aprovavam um retorno total ao escritório e 73% consideravam procurar outro emprego que mantivesse os benefícios de flexibilidade. A pesquisa teve 2.585 respondentes.
Quão flexível eu quero ser?
Para o diretor de negócios de carreira da Mercer Brasil, Rafael Ricarte, o debate sobre trabalho remoto, presencial ou híbrido neste momento gira em torno dos fatores errados.
“Na pandemia ficou claro que não é uma questão de produtividade. A discussão é sobre flexibilidade. ‘O quão flexível eu quero ser enquanto companhia?’ Estamos falando da determinação de um valor, de um princípio que a empresa precisa avaliar qual modelo de trabalho funciona para ela”, diz Ricarte.
Com o fim da pandemia, muitas companhias não avaliaram seus modelos de negócios, seus valores, ou mesmo a produtividade considerando as novas formas de trabalhar que surgiram durante o período de isolamento social (híbrido ou remoto). Elas apenas seguiram tendências de grandes nomes, como as empresas de tecnologia.
“São três pontos para se avaliar sobre flexibilidade: preciso ser?, posso ser? e quero ser? Tem empresa que não precisa ser flexível, mas pode ser, e por princípio do dono ou CEO, simplesmente não quer. E tudo bem. Mas que isso fique definido e seja claro para os funcionários atuais e contratados no futuro”, afirma o diretor.
Diniz, da GPTW, acredita que os modelos híbridos e remotos não irão sumir, mas se tornarão uma medida de competitividade forte. A flexibilidade é um dos principais motivadores para as pessoas que procuram um emprego. Uma pesquisa de economistas das universidades de Nottingham, Sheffield e King’s College London, do Reino Unido, mostrou que os britânicos estariam dispostos a reduzir até 8,2% de seus salários para continuar trabalhando apenas dois ou três dias por semana no escritório.
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O Pinterest entendeu o recado. A empresa não só abraçou o trabalho flexível como seus diretores são fortes apoiadores. Em um artigo publicado na Fast Company em novembro de 2024, a diretora Doniel Sutton afirma que o RH recebeu um volume de currículos 90% maior do que o habitual depois de “uma gigante da tecnologia anunciar o retorno presencial”.
“Nossa análise interna mostra que, em 2023, a política de trabalho flexível do Pinterest aumentou a produtividade, promoveu mais colaboração e melhorou o bem-estar”, escreveu Sutton. “Portanto, embora alguns líderes insistam que o trabalho remoto está sufocando a inovação, a colaboração e a produtividade, evidências concretas mostram o contrário.”
E o Pinterest não está sozinho. O Citi reiterou sua política flexível e a presidente executiva Jane Fraser ainda destacou que é uma escolha racional, que visa a competitividade frente aos bancos que estão voltando 100%. O Spotify é outro defensor do modelo flexível e carimbou: “Você não pode gastar muito tempo contratando adultos e depois tratá-los como crianças.”
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Questão de tempo
Para Ricarte, por trás de tudo isso existem gestores que estão habituados apenas com um modelo mais antigo e tradicional de liderança.
“É uma mentalidade de comando e controle que observamos em ditados populares: ‘olho do dono que engorda o gado’, ‘quem não é visto não é lembrado’. E não quer dizer que esses gestores são profissionais ruins, muitos são competentes, mas são educados nessa visão antiga e tem dificuldade de gerir de outras formas”, diz o diretor da Mercer.
Ele usa o exemplo de um pêndulo para descrever a situação. Na pandemia, o trabalho remoto foi forçado por ser a única solução naquele momento, o que puxou o pêndulo até uma ponta, e agora o movimento natural é voltar para o extremo oposto. Na opinião de Ricarte, o pêndulo não deve parar e, com o tempo, o movimento tende a diminuir e se aproxima de um equilíbrio.
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“O tempo também vai permitir a reciclagem da mentalidade e desses métodos mais antigos de gestão, conforme novas lideranças aparecem, com valores mais voltados para flexibilidade”, diz Ricarte.
- Leia também: Home office x trabalho híbrido: quais são as disputas em torno da volta ao escritório em 2024?
Diniz diz que essa evolução do mercado de trabalho é natural e também depende do passar do tempo.
“Na história do trabalho, o ser humano já trabalhou muito mais horas, com pouca qualidade de vida, e isso foi melhorando. Com o progresso da automação e da tecnologia, a evolução é natural e flexibilidade é um conceito elástico, que permite adaptação para as empresas e os funcionários”, diz a diretora da GPTW.