Uma das estratégias para quem investe em renda variável e busca uma entrada extra no caixa de tempos em tempos é o foco em dividendos.
Quando as ações distribuem proventos, o investidor pode se beneficiar de duas formas: com o recebimento dos recursos e com a valorização do título. O mesmo vale para os fundos imobiliários (FIIs) que, por lei, também são obrigados a distribuir parte de seus lucros aos cotistas.
As empresas que costumam pagar dividendos costumam ser as que possuem menor volatilidade nos pregões da bolsa, como observa Bruna Sene, analista de renda variável da Rico.
“Normalmente, as ações defensivas são a melhor escolha para investir com foco em dividendos. Baixo endividamento, mais previsibilidade de resultados e consolidadas em seus setores de atuação são algumas das características dessas empresas”, diz Bruna.
Neste guia, o InfoMoney mostra o funcionamento dos dividendos e como se pode ganhar dinheiro com essa estratégia de investimento. Se você está em busca de diversificação para a sua carteira, ou se simplesmente deseja saber mais sobre o tema, continue a leitura a seguir.
O que são dividendos?
Os dividendos são a parcela do lucro da empresa que é distribuída aos acionistas.
Eles dependem de diversos fatores, como desempenho do negócio, geração de caixa e estratégia da companhia. Mesmo que as ações se desvalorizem, são uma fonte de renda para o investidor – e livre de Imposto de Renda, conforme veremos mais adiante.
Os dividendos que o investidor recebe são proporcionais ao número de ações ou cotas que ele tem. Quanto maior o volume, maior o valor recebido.
Quais investimentos pagam dividendos?
Quando se fala em dividendos, as ações e os fundos imobiliários são os investimentos mais conhecidos.
Mas também existem outras opções na bolsa, embora ainda não sejam tão populares. É o caso dos Fiagros, BDRs e ETFs.
O Fiagro é uma alternativa para quem deseja, além de receber dividendos, investir no agronegócio brasileiro. Esse tipo de fundo investe nas cadeias produtivas do agro, seja em em imóveis e recebíveis ligados ao setor, ou na própria atividade.
Por sua vez, os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) são recibos negociados na B3 que representam ações ou outros papéis listados em bolsas estrangeiras. Se o investidor brasileiro tem BDRs de uma empresa estrangeira que paga proventos, ele também irá receber.
Já os ETFs (Exchange Traded Funds) são fundos negociados no pregão que replicam o desempenho de determinado índice ou ativo financeiro do mercado. A partir de fevereiro de 2023, a bolsa passou a permitir a negociação de novos ETFs que pagam dividendos aos cotistas.
“Hoje ainda são poucos os ETFs que distribuem dividendos no Brasil. Mas acredito no potencial deste ativo, pois o tema dividendos sempre desperta muito interesse por parte dos investidores”, avalia Bruna Sene.
Quais os tipos de remuneração para os investidores além dos dividendos?
Além dos dividendos, quem investe em ações pode receber os proventos de outras três formas, que são: juros sobre capital próprio (JCP), bonificações e direitos de subscrição.
A seguir, veja como funciona cada uma delas.
Juros sobre capital próprio (JCP)
Para quem recebe os recursos, os juros sobre capital próprio (JCP) são muito semelhantes aos dividendos. Basicamente, a diferença entre ambos está na base de cálculo, e envolve o aspecto contábil da operação.
A base de cálculo dos dividendos é o lucro líquido da empresa, ou seja, a última linha da Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). Por isso, eles são livres de Imposto de Renda para o investidor, pois a empresa já recolheu o tributo.
Já os JCP representam um percentual do patrimônio líquido, e entram na DRE como despesa, antes do lucro líquido. Neste caso, há incidência de 15% de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), pois o valor ainda não sofreu tributação.
Bonificações
Quando as empresas auferem lucro, uma parte desse resultado vai para uma conta de reservas, dentro do patrimônio líquido. Cada organização decide o que irá fazer com esses recursos – se vai investir em algum projeto, se vai guardar o dinheiro para futuras estratégias, ou se vai distribuir uma parte aos acionistas via bonificações.
Em outras palavras, as bonificações correspondem a um pagamento extra aos sócios que a empresa realiza a seu critério. Esse pagamento pode ser em dinheiro ou sob a forma de novas ações de sua emissão.
Direitos de subscrição
Quando uma empresa pretende emitir novas ações, ela precisa dar prioridade na compra desses títulos aos atuais investidores, pelo preço de emissão. Isso se chama direito de subscrição, e serve para garantir que o acionista mantenha a mesma participação na companhia, se assim desejar.
Caso o acionista não tenha interesse em adquirir os novos papéis, ele pode vender o seu direito de subscrição no mercado e lucrar com a operação.
Quais ações pagam dividendos?
Via de regra, todas as empresas listadas na bolsa têm a obrigação de pagar dividendos a cada ano fiscal, se houver lucro. Segundo a Lei 6.404/76 (Lei das S/A) , o acionista tem direito a receber em cada exercício a parcela de lucros estabelecida no estatuto da companhia.
O dividendo mínimo obrigatório é definido no estatuto das empresas, que são livres para determinar o percentual do lucro líquido que será distribuído. Em tese, pode variar de 1% a 100%.
No entanto, se o estatuto não mencionar o percentual, a norma estabelece o pagamento de 50% do lucro líquido anual ajustado, ou seja, depois de deduzir as reservas previstas na própria lei.
Papel da assembleia geral
Quando o estatuto for omisso e assembleia geral de acionistas decidir alterá-lo para introduzir um percentual, este não poderá ser inferior a 25% do lucro líquido ajustado.
Cabe à assembleia geral ordinária deliberar sobre a destinação do lucro líquido e a distribuição de dividendos. É possível que a administração avalie que o pagamento de dividendos obrigatórios é incompatível com a situação financeira da empresa, caso em que poderá ocorrer redução ou não distribuição dos proventos.
Se for essa a decisão, os recursos vão para uma reserva especial. Se a empresa não utilizar esse dinheiro para cobrir prejuízos nos exercícios seguintes, deverá distribuí-lo entre os acionistas assim que a situação permitir.
Também existe a possibilidade de que a assembleia vote pela não distribuição de dividendos quando a empresa pretende investir em um projeto significativo. É por isso que, normalmente, as empresas que costumam pagar mais dividendos são as já consolidadas, com ampla presença em seus mercados e sem muita necessidade de expansão.
Mas atenção: isso não quer dizer que empresas em crescimento não paguem dividendos. Geralmente, investidores procuram essas companhias quando estão de olho em seu potencial de expansão – e de valorização das ações. Mas elas podem pagar proventos por motivos pontuais, como a venda de um ativo, ou conseguem aliar distribuição de parte dos lucros com reinvestimento de outra parte.
Como calcular dividendos?
O valor dos dividendos dependerá do tamanho do lucro da empresa. Se em determinado período a companhia não tem ganhos, não há o que distribuir.
Cada acionista recebe um valor proporcional ao tipo de ação (preferencial ou ordinária) e à quantidade que detém. Neste sentido, os dividendos são representados por um determinado valor por ação.
Se o investidor tiver 300 ações de uma empresa que paga R$ 3,00 por ação, ele receberá R$ 900 em dividendos (300 x 3 = 900).
Da mesma forma, nos FIIs, Fiagros, BDRs e ETFs, o investidor tem direito a um valor proporcional à quantia de cotas e/ou títulos que possui. No caso dos FIIs, a lei que os rege estabelece a distribuição de, no mínimo, 95% dos lucros semestralmente. Porém, a grande maioria paga com periodicidade menor, normalmente mensal.
Dividendos, dividend yield e proventos: entenda a diferença
Como vimos, os dividendos são um dos tipos de proventos que os investidores recebem de ações e outros ativos.
Já o dividend yield (DY) é um indicador que mede a taxa de retorno de um título na forma de dividendos, e é utilizado para verificar se o provento é atrativo ou não em relação ao preço do papel. Essa é uma das métricas utilizadas para avaliar se uma empresa é interessante ou não para estratégias de dividendos.
O DY é expresso como uma porcentagem do preço da ação. Para calculá-lo, é preciso dividir o valor nominal do dividendo por ação pelo preço no papel no período relativo ao pagamento do provento. O resultado é multiplicado por 100 para se chegar a uma taxa percentual:
DY = (dividendos pagos por ação / preço da ação) x 100
Por exemplo: uma empresa anuncia que irá distribuir dividendos de R$ 2 por ação, e o valor do papel está em R$ 40. Com essas informações, podemos calcular o DY:
DY = (R$ 2 x R$ 40) x 100 = 5%
DY desta ação, portanto, será de 5%. Quanto maior o indicador, maior também será o retorno do papel com dividendos.
A mesma métrica é usada para mensurar a taxa de retorno de outros ativos com dividendos, em relação ao valor das cotas ou do papel.
Como saber se uma ação paga dividendos?
A seguir, veja alguns aspectos importantes a serem considerados na hora de investir com foco em dividendos.
Recorrência de pagamentos
O primeiro passo é pesquisar o histórico da empresa para saber se ela distribui proventos regularmente. Essa é uma boa maneira de verificar se os pagamentos são um hábito ou se são apenas eventuais, em situações específicas.
Lembre-se que companhias em expansão podem usar lucros para financiar seu crescimento. Além disso, negócios que dão prejuízo não pagam proventos, e, no caso de empresas pouco lucrativas, os valores distribuídos costumam ser baixos.
Dividend Yield
Além da regularidade, é importante verificar o dividend yield ao longo do tempo para saber se o retorno da ação compensa o seu preço Analistas fazem projeções de dividend yield futuro. É importante estar atento a essas expectativas também.
Outro ponto de atenção é o fato de que um dividend yield baixo não indica, necessariamente, pouca lucratividade. Mesmo se a empresa for extremamente lucrativa e distribuir 100% do que ganha, o indicador despenca se a ação estiver muito “cara”. Nesse caso, é sinal de que o retorno pode não compensar o tamanho do investimento.
“Olhar para os indicadores fundamentalistas ROE (retorno sobre o patrimônio) e ROIC (retorno sobre o capital investido) também ajuda a dar uma ideia do potencial de crescimento dos dividendos lá na frente”, observa Bruna, analista da Rico.
Política de distribuição de proventos
Saber qual é a política de dividendos da empresa também é importante. As empresas listadas na bolsa têm sites de relações com investidores. Procure pela política de remuneração aos acionistas para saber o padrão de distribuição da companhia. O estatuto também pode ter informações nesse sentido.
Algumas companhias apresentam planejamento de longo prazo sobre o tema. A Petrobras, por exemplo, lançou em novembro de 2021 seu plano estratégico até 2026, com o compromisso de pagar dividendos mínimos de US$ 4 bilhões em exercícios em que o preço do barril de petróleo Brent ficar acima de US$ 40. A expectativa é distribuir de US$ 60 milhões a US$ 70 bilhões no período em proventos.
Em suma: além de verificar se a companhia tem um padrão de distribuição, o investidor deve se debruçar sobre os seus balanços, saber sobre a saúde do negócio, lucratividade, geração de caixa, expectativas do mercado e se a conjuntura econômica é favorável àquele empreendimento.
Há profissionais que fazem isso. As corretoras, por exemplo, costumam divulgar regularmente carteiras recomendadas de ações que pagam dividendos. O mesmo vale para fundos imobiliários. Fora isso, a B3 tem um índice de papéis que costumam pagar proventos, o IDIV, composto por algumas dezenas de companhias.
Renda fixa paga dividendos?
Na renda fixa, também existem alternativas para quem busca receber renda passiva com investimentos de tempos em tempos.
É o caso, por exemplo, do Tesouro Direto com juros semestrais e de algumas debêntures que remuneram periodicamente o investidor. O que muda é a denominação desses rendimentos que, no caso da renda fixa, chamamos de cupons em vez de dividendos.
Como funciona o pagamento dos dividendos?
Quando a empresa distribui os dividendos, o dinheiro cai automaticamente na conta do investidor, já líquido do Imposto de Renda.
Como alerta Bruna Sene, para receber os dividendos, é preciso ter a ação na data com, ou seja, na data que representa o último dia que dá direito ao recebimento dos proventos. Depois desse dia, começa a data ex (ou ex-dividendos).
Por exemplo, a companhia informa que a data ex-dividendos é 14 de fevereiro. Quem adquirir papéis antes deste dia, receberá os proventos. Por outro lado, quem comprar depois, só terá direito a recebê-los se permanecer com eles na carteira até a próxima data com.
A ideia por trás da data limite é justamente privilegiar quem era acionista da companhia na época em que ela obteve os lucros que serão distribuídos.
É preciso declarar dividendos no Imposto de Renda?
Embora os dividendos não tenham incidência de IR, é necessário incluí-los na declaração anual de Imposto de Renda.
No programa da Receita Federal, o local para anotar a informação é a ficha “Rendimentos Isentos e Não Tributáveis”, no campo “09 – Lucros e dividendos recebidos”.
Você confere o processo passo a passo no guia Como declarar dividendos no Imposto de Renda, do InfoMoney.
Vale lembrar que a isenção vale para dividendos. Como vimos, os juros sobre capital próprio (JCP) pagam alíquota de 15% de IR na fonte.
Além disso, o ganho de capital é tributado. Se você comprou ações a determinado preço e depois vendeu por um valor maior, há ganho de capital.
Esse lucro não terá tributação se as vendas de ações no mês não ultrapassarem R$ 20 mil.
Acima disso, incide alíquota de 15% nas operações comuns e de 20% no day trade (compra e venda de ações no mesmo dia) independentemente do valor mensal.
O ganho de capital na venda de cotas de fundos imobiliários paga alíquota de 20% de IR, independentemente do valor da operação. O próprio investidor tem que calcular e pagar o imposto sobre ganhos de capital, pois não há desconto na fonte.
Um detalhe: dividendos pagos por BDRs são tributados. Os proventos podem ser taxados no país da empresa pagadora, o que varia de acordo com a origem, e no Brasil. Há, no entanto, a possibilidade de compensar o valor desembolsado lá fora com o cobrado aqui, caso o Brasil tenha acordo para evitar bitributação ou de reciprocidade de tratamento tributário com a outra nação.
Os Estados Unidos são um exemplo. Lá, os dividendos são taxados em 30% e é possível compensar esse gasto com o IR cobrado aqui, pois há reciprocidade de tratamento tributário entre o Brasil e os EUA.
Quais são as maiores pagadoras de dividendos no Brasil?
A lista de maiores pagadoras de dividendos varia com o tempo, de acordo com os resultados das empresas, planos de investimento, necessidade de caixa, entre outros aspectos. Mas, de forma geral, costumam ser as companhias que atuam em setores mais consolidados e que se destacam em sua atividade.
Por exemplo, a carteira de dividendos da Rico de maio/2025 trouxe nomes como Banco do Brasil, BB Seguridade, Bradesco, Petrobras, Vale, TIM, Itausa, Bradespar e duas ações do setor de construção civil: Cury e Direcional.
“Além das tradicionais pagadoras de dividendos, também incluímos na nossa carteira algumas empresas de setores cíclicos, quando elas estão em momentos de crescimento de receita e lucro”, explica a analista da Rico.
O que é carteira de dividendos?
Carteira de dividendos é uma carteira com ações de empresas que pagam ou têm potencial de pagar bons proventos. É um portfólio que, mais do que valorização, tem por objetivo gerar renda ao investidor, embora as duas metas não sejam excludentes.
Como montar uma carteira de dividendos?
Bruna Sene observa que, quando se fala em construir uma carteira de dividendos, os critérios não mudam muito ao longo do tempo.
“De forma geral, é preciso olhar para o setor da empresa, solidez, constância de resultados, endividamento, geração de caixa livre, entre outros aspectos. Além do dividend yield, outro indicador importante para analisar dividendos é o payout, que se refere ao percentual do lucro líquido distribuído como dividendos”, explica a analista.
Como nem todas as pessoas têm tem tempo, conhecimento ou disposição para fazer uma análise tão completa, os analistas do mercado de capitais avaliam os papéis e fazem recomendações, divulgando regularmente carteiras recomendadas de dividendos.
Todo mês, o InfoMoney compila as ações mais citadas nas carteiras recomendadas de dividendos de algumas instituições financeiras.
Recomendações de “compra”, “neutra” ou “manutenção” e “venda” são alguns dos termos mais usados por analistas. Embora as próprias palavras já indiquem qual é a orientação, recomenda-se ler os relatórios produzidos por estes profissionais para saber quais são os motivos das recomendações e só depois tomar uma decisão. Vale lembrar que as avaliações variam de acordo com cada especialista.
É possível viver de renda com dividendos?
Sim, mas demanda muito estudo e disciplina.
Além disso, tudo vai depender do volume de seus gastos e do tamanho de sua carteira. É necessário ter um volume suficiente para investir em papéis que paguem proventos, o bastante para cobrir seus gastos.
Outro ponto importante é a diversificação da carteira. Isso porque, dependendo do momento da economia, alguns negócios que eram lucrativos deixam de ser, e outros que não eram, passam a ser.
Um bom exemplo dessa situação foi o mercado imobiliário durante a pandemia de Covid-19. Na época, shopping centers ficaram praticamente fechados durante meses, assim como outros imóveis comerciais, e fundos centrados nestes empreendimentos perderam renda de aluguéis. Por outro lado, o comércio eletrônico e outras atividades online explodiram no período.
Para ajudar quem tem o objetivo de formar reservas para viver de dividendos, o InfoMoney disponibiliza gratuitamente a Planilha Viva de Renda com Dividendos. A ferramenta, que vem acompanhada de instruções de uso, permite que os usuários façam combinações de ativos que podem gerar uma renda passiva.